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Entrevista prof. Tadeu A. Arrais: Revista Humanidades em foco

Professor Adjunto da UFG. Doutor em Geografia pela Universidade Federal Fluminense. Coordenador do Observatório Geográfico de Goiás.

Humanidades. O crescimento urbano tem sido enfatizado como a causa principal dos problemas urbanos. Como você compreende essa questão tendo em foco a cidade de Goiânia?

A visão de que os problemas urbanos são causados pela concentração populacional pode induzir a pensar que não é possível viver bem, com qualidade social e ambiental, nas grandes aglomerações. Em parte isso pode ser verdade. Mas, vamos olhar por outro ângulo. O problema não está no crescimento urbano, mas no modelo de produção do urbano que é, essencialmente, desigual. Uma sociedade desigual só poderá produzir espaços desiguais. A cidade, como construção humana, deve ser entendida no contexto sócio-histórico de sua produção. Se a cidade aparece como vilã é porque sua paisagem urbana é a expressão concreta dessa sociedade desigual. Li uma reportagem na Carta Capital Escola, que apresenta estatísticas preocupantes, dando conta que em 2030, aproximadamente 24% da população dos países periféricos viverá em favelas. Mas nos países centrais também existem muitos problemas. Veja o que ocorreu recentemente em Paris. A pobreza e a concentração de renda também aumentam acima do Equador. A solução em Nova York, por exemplo, foi muito atraente para as elites conservadoras daquela cidade e passou a ser entendida como paradigma, como antídoto para os problemas urbanos. Com o Tolerância Zero, Nova York inaugurou a gestão policial da cidade. A pobreza incomodou tanto que foi criminalizada e, conseqüentemente, os pobres, os negros, os latinos, os sem-teto, foram culpados. Quem quiser saber mais sobre isso é só ler o livro As prisões da miséria, do sociólogo Loic Wacquant. Esquecemos que esse modelo econômico não é capaz, nem mais, de garantir emprego para a população, especialmente para os jovens. Sem emprego e sem seguridade social, com menos escolas e moradia precária e vendo os ricos cada vez mais ricos, como não entender a atitude dos jovens, migrantes ou não, na periferia de Paris?
A diferença em Goiânia está na dose. Quem não viu o que ocorreu no Parque Oeste Industrial. Essa história tem raízes muito antigas. Em 1940 Goiânia abrigava 49.166 pessoas, triplicando esse total já em 1960 e passando, nos dias de hoje, para mais 1.200.000 pessoas. A pergunta, do ponto de vista da geografia, é simples: onde estão essas pessoas? Como elas foram e estão se movimentando no espaço urbano? De que forma estão distribuídas no espaço urbano? Sua distribuição depende, diretamente, do poder aquisitivo, da renda. Existem uns que moram em áreas privilegiadas com infra-estrutura e serviços e outros que moram em bairros sem a mínima infra-estrutura, sem água, sem esgoto, mas com muita poeira. Tem gente que se desloca, diariamente, quase 100 km para trabalhar e estudar, em um transporte de péssima qualidade. Isso não começou hoje, muito menos ocorre porque temos uma aglomeração de mais de um milhão de pessoas. Reconheço que os desafios governamentais são mais complexos que na década de 1940. Mas, o que quero dizer é que não dá para acreditar que em 1940, ou 1950, todos viviam em perfeita comunhão.
Esses são os desafios que temos que enfrentar. É o caso, por exemplo, do Plano Diretor. Estamos falando de um Plano Diretor para uma cidade desigual. Já pensou na infra-estrutura que tem sido criada, pelos Governos Municipal e Estadual, na região do shopping Flamboyant? E o Parque Flamboyant, projetado nos moldes do Vaca Brava? Por que ele vem só agora? Por que aparece no momento, justamente, de intensa verticalizacao e valorização daquela região? Quem ganhou com isso? Veja bem. O Estado cria, projeta, inventa, distribui amenidades no espaço urbano. Faz isso aleatoriamente? É claro que não.
Certamente, os interesses envolvidos no parcelamento e zoneamento do solo urbano são muito diversos. Daí resulta uma potencial situação de conflito. O planejamento, de certa forma, foi visto como a solução para esses conflitos. Então, alguém diz: 'Goiânia precisa de planejamento'. Aqui vale recordar o geógrafo Marcelo Lopes de Souza, quando escreve, em Mudar a cidade (um dos melhores livros sobre o assunto dos últimos tempos), que o planejamento não é neutro, nem necessariamente conservador. Assim também é o Estado. Se é o Estado que planeja a cidade, dotando-a de infra-estrutura e regulando o uso do solo, temos que pensar, também, quais os limites desse planejamento. O planejamento é, sobretudo, político. Para citar novamente o Marcelo Lopes, “planejar não é planejar algo, mas para alguém”. Residem aí o conteúdo político e as dificuldades de elaboração de qualquer Plano Diretor.
Quem, então, regula a produção do espaço urbano? Vamos voltar ao Parque Oeste Industrial. Primeira questão: onde a ocupação estava localizada? Ora, em uma das áreas de maior valorização imobiliária de Goiânia, muito próxima dos grandes blocos de condomínios verticais que hoje aparecem na TV como o mais novo “Eldorado” de Goiânia. Quem ocupava? Há duas versões. A primeira, divulgada pelos movimentos sociais, é que a maioria era composta por famílias de baixa renda e sem casa própria; a segunda, divulgada pela imprensa, numa campanha regular, era que a “invasão” serviu para fins políticos e que aqueles que estavam ali tinham boas condições econômicas. Qual das versões colou? A segunda. Isso porque Estado, agentes imobiliários, incorporadores, imprensa etc. estão do mesmo lado. No dia da retirada dos ocupantes, lembro-me bem da cena: sobre uma bancada de madeira, coberta com um pano branco, o que oferece maior impacto, a imprensa filmou facas, dois ou três revólveres enferrujados, estiletes, pedaços de madeira com pregos, coisas quase artesanais, apresentadas como um verdadeiro arsenal de guerra comparável às milícias colombianas. Aquilo era dos posseiros? Talvez. Imagino que sim. Mas agora vou fazer um outro desafio. Vamos medir o arsenal de armas dos habitantes do Setor Bueno, do Jaó ou mesmo do Universitário? Certamente, a imprensa encontrará mais armas que no Parque Oeste. Também é possível que se encontre, como no Parque Oeste, alguns foragidos da Justiça. Certamente encontraremos contraventores, sonegadores de impostos, usuários de drogas, delinqüentes juvenis, muitos dos quais bem vestidos e acomodados em condomínios verticais de luxo. Isso é criminalizar a miséria. Fui, recentemente, ao Setor Grajaú, onde os sem-teto foram jogados. Fica muito longe. Não tive qualquer problema. A não ser pela indignação diante da situação de crianças e idosos vivendo em barracos de lona preta, tudo foi muito tranqüilo. As fotos estão no site do Observatório Geográfico de Goiás (www.observatoriogeogoias.com.br) e eu ainda estou vivo.


Humanidades. O que você tem a dizer sobre os problemas regionais em Goiás?

Qualquer que seja o projeto regional, qualquer que seja a estratégia de intervenção regional, deve-se partir, obrigatoriamente, de uma visão mais global do que foi, do que é e do que será um determinado território. A visão das elites que governaram e governam o Estado de Goiás parece simples: Goiás era agrário e pouco competitivo. Em função dos investimentos em infra-estrutura, da competência administrativa e da sensibilidade social de suas elites, o Estado vem caminhando, inexoravelmente, para o progresso. Minha visão também é relativamente simples: Goiás era agrário e sua industrialização, incompleta, ocorreu em função de uma demanda nacional da modernização agrícola, o que causou impactos profundos na estrutura agrária, urbana e regional, especialmente a partir da década de 1970. Fala-se muito, por exemplo, em modernização agrícola nesse período, com farto e seletivo crédito para o plantio de soja. Ao mesmo tempo em que ocorria essa modernização conservadora, muita coisa acontecia no Estado. Cidades cresciam e a pobreza aumentava, tanto no campo quanto na cidade. Também fomos forçados a inserir a soja no nosso cotidiano. Estudei no COLU (Colégio Estadual Costa e Silva) e naquele tempo (década de 1980) não entendia por que uma professora insistia em fazer oficinas de culinária, estimulando, por exemplo, o consumo de leite de soja.
Enquanto isso, o cerrado ia se acabando. A idéia de fronteira foi uma tragédia para Goiás. Ainda tínhamos (temos) outro problema que era sustentar uma matriz energética à base de carvão vegetal. Até hoje é assim, basta ver o quanto o Nordeste goiano produz de carvão por ano e para onde vai. Também assistimos um processo dramático de migração, que empurrava a população do Distrito Federal para o Entorno Goiano. As seis cidades dessa região (Corumbá de Goiás, Cristalina, Formosa, Luziânia, Pirenópolis e Planaltina), em 1940, somavam menos de 80.000 pessoas. A partir de 1960, com Brasília, tudo começa a mudar: migração, migração, migração. Veja a origem, ainda hoje, da população dessas cidades. Antes de ser fragmentada, em 1991, Luziânia tinha quase 210.000 habitantes. Imaginem como essa população, carente e sem ter onde morar, foi manipulada politicamente? Enquanto isso acontecia, os olhos dos governantes e da imprensa estavam direcionados para o Sudoeste goiano. Cito esses exemplos para demonstrar que nosso território, desde cedo, é muito desigual.
E hoje, como estamos? Nosso PIB mais que dobrou de 1990 para 2000. As exportações também tiveram um salto significativo, aumentando em cinco vezes de 1998 para 2005. Exportamos para a China, Itália, Estados Unidos, Holanda etc. Nosso PIB ainda tem forte participação do setor agropecuário, incluindo o setor agroindustrial, o que determina, de certo modo, o perfil de nossas exportações e a dinâmica das trocas monetárias, afinal mais de 80% do que importamos são produtos manufaturados. O complexo soja e o complexo carne são responsáveis por mais de 70% do que exportamos. Essa pouca diversificação é um fator negativo no mercado globalizado. Essa estrutura, portanto, é frágil, mesmo que a mídia pronuncie o contrário. Aliás, a ligação da mídia com o discurso governamental nunca foi tão forte. A todo momento encontramos encartes especiais nos jornais destacando as propriedades positivas da nossa economia. Em junho saiu um desses encartes com 24 páginas, todas grifadas com a chamada: “A nova fronteira econômica do País”. Alguém já parou para pensar o quanto isso custou? Ontem (domingo, 20/08/2006) fui ao HUGO de Aparecida de Goiânia só para confirmar o que vou dizer: o hospital foi inaugurado, mas não funciona. Estava lá, perdido, parado, imóvel, impune, estático. Por que isso não vira notícia?
Para problematizar um pouco mais: qual a relação de tudo isso com as questões regionais?
Do ponto de vista regional, toda essa “riqueza” encontra-se regionalizada e concentrada. Isso quer dizer que ela privilegiou algumas regiões e, ao mesmo tempo, as elites que falam por essas regiões. Uma breve comparação, em termos econômicos, de dados (renda, arrecadação de ICMS, PIB, produção agropecuária, unidades de comércio e indústria, emprego etc.) entre as microrregiões demonstra o que estou afirmando. Existem desigualdades enormes entre o Vão do Paranã e a microrregião de Catalão, por exemplo, ou entre a microrregião de Porangatu e o Sudoeste Goiano. A Região Metropolitana de Goiânia representa, em termos de área, menos de 2% do Estado e em termos de população mais de 30%, sendo que a população jovem tem a maior participação nesse bolo. Já o Nordeste Goiano, com uma área de quase 12% do Estado, representa menos de 4% de sua população. O retrato regional goiano, seja do ponto de vista da economia, da densidade demográfica, dos recursos naturais, dos indicadores sociais, das ações seletivas dos governos, é desigual, mas não por ordem do destino.
É assim que a estrutura regional brasileira foi se reproduzindo no território goiano. Se existem “ilhas de produtividade” no Brasil, aqui também temos as nossas. A mídia e o discurso governamental, há pouco tempo, resumia assim seu discurso sobre as regiões goianas. O Nordeste Goiano é pobre e o Sudoeste Goiano é rico. O segundo é rico porque produz isso (grãos e, especialmente, soja) e o primeiro é pobre porque não produz aquilo que o primeiro produz. Lembro-me de uma reportagem comparando o Nordeste Goiano à África. Uma aberração! As duas regiões aparecem como pares e o sucesso de cada uma delas passa a ser compreendido como o sucesso dos atores sociais que vivem nessas regiões, ou seja, de baianos e gaúchos, como sugere a reportagem. Trata-se de uma visão substancialista, que nos faz crer, em primeiro lugar, que o Estado não teve interferência no destino dessas regiões e, em segundo, que essas regiões são potencialmente atrasadas ou potencialmente prósperas. Esquecemos, entretanto, que, mesmo as cidades pequenas, como Chapadão do Céu, exibem um dos maiores indicadores de concentração de renda do Estado de Goiás. Isso sem dizer que pouco resta da cobertura vegetal original. Quanto de cerrado ainda existe em Chapadão do Céu? Mesmo numa perspectiva econômica, qual será a vantagem dessa situação em cinco, dez, quinze, trinta anos?
Então, como pensar em desenvolvimento regional num Estado cujo perfil econômico privilegia a grande propriedade e o mercado externo? Creio que o Estado deve assumir seu papel no ordenamento do território, numa perspectiva de ação menos vertical e mais horizontal, sem adotar modismos e receitas para salvar as regiões. O turismo é um exemplo. De um momento para outro, Goiás transformou-se em uma espécie de Eco-Disney. Há quase um consenso sobre o papel que o turismo exercerá em determinadas regiões goianas, especialmente a norte e a nordeste. Mas será esse o caminho? Sou pessimista. É preciso ter coragem para romper com o modelo atual. A solução não é setorial, mas estrutural. O que gera emprego? O que gera emprego e garante sustentabilidade ambiental? É preciso, antes de tudo, estimular um pensar e um agir regional nas comunidades. Quantos consórcios para saúde e transporte existem em Goiás? Que lógica guiou a criação de Unidades da UEG nas regiões de Goias? Ao responder essas questões estaremos vendo quão tortuosos foram os caminhos da intervenção regional em Goiás.
No Brasil conseguimos, de uma forma ou de outra, inserir a questão regional na agenda do país, especialmente a partir da década 1930 (o IBGE teve papel fundamental) e com mais força a partir do final da década de 1950 com a SUDENE e depois com a SUDAM, a SUDECO etc. No governo FHC, em função do seu claro perfil neoliberal, esses órgãos foram condenados, como se a corrupção fosse característica intrínseca dos órgãos públicos. Aí, veio a guerra fiscal e jogou a pá de cal na possibilidade de intervenção regional. Os Eixos Nacionais de Integração Nacional ilustram o que estou dizendo. Atualmente, temos a PNDR (Política Nacional de Desenvolvimento Regional) que, do ponto de vista teórico, representa uma evolução. Não tenho como avaliar sua eficácia neste momento. Em Goiás, reconheço algumas ações pontuais, mas nada parecido com uma intervenção regional planejada. A timidez da AGDR (Agência Goiana de Desenvolvimento Regional) incomoda. Foi a SEPLAN – GO que assumiu, ao que me parece, esse papel. Aqui tenho que fazer uma justiça. A SEPLAN-GO tem produzido, periodicamente, um conjunto de dados e indicadores importantes para o diagnóstico regional, o que pode ser um bom ponto de partida. Mas, para pensar em desenvolvimento regional é preciso pensar em recursos, em um fundo regional que não seja administrado, individualmente, pelos municípios. É imprescindível estabelecer prioridades que tenham como corte a solução de problemas que afligem determinada região e, a partir daí, estimular um pensar regional. Nem sempre os problemas municipais são problemas regionais. Construir campos de futebol e lagos, seja aqui ou ali, não constitui, de forma nenhuma, um programa de desenvolvimento regional. São ações pontuais com relativo efeito midiático. O ABC paulista experimentou um modo de discussão e cooperação regional interessante. Mas estamos longe disso.
Para finalizar, acho estranha a omissão dessa discussão no horário político eleitoral. Parece que alguns candidatos, especialmente os que dispõem de maior tempo, não têm idéia da heterogeneidade do nosso território. Alguns dizem que vão asfaltar todas as ruas do Estado; outro diz que vai subsidiar as contas de água dos professores que consomem até R$250. Lá aparece de tudo, menos discussão regional. Contei, dia desses, 123 referências e agradecimentos a Deus. Quem sabe Ele não resolva nossos problemas regionais, mesmo porque sua experiência em regionalizar já é antiga.


Humanidades. E o Eixo de Desenvolvimento Goiânia-Anápolis-Brasília? Como ele se insere no contexto regional goiano?

A análise do eixo revela um quadro de intenções com características diferentes, muito embora reproduza o mesmo conteúdo daquele propalado para o Sudoeste ou para o Nordeste Goiano. O que é o eixo? Ele existe, de fato? O eixo é uma “região” que abrange, grosso modo, a Região Metropolitana de Goiânia, Anápolis, Brasília e a microrregião do Entorno de Brasília, uma área superior a 14.000km2 e com quase cinco milhões de pessoas.
Esse discurso tem dois pontos de partida: Goiânia sob o comando do Governo do Estado de Goiás, e Brasília sob o comando do GDF (Governo do Distrito Federal). Os demais municípios, exceção feita à Anápolis, são coadjuvantes, ou melhor, figurantes, estão nas bordas, servem, quando muito, para aumentar as estatísticas populacionais sobre o potencial de consumo e área e para dar idéia de um “eixo” regionalizado, forjando o consenso em torno da integração econômica. Para se ter uma idéia da fragilidade desse discurso, basta dizer que Goiás e Distrito Federal, juntos, em 2000 representavam pouco mais de 4% do PIB brasileiro. Quando pensamos no valor da produção industrial, de maneira geral, as economias do Centro-Norte ainda estão muito distantes do Centro-Sul. De acordo com dados da Pesquisa Anual da Indústria, em 2001 a região Sudeste foi responsável por 64,49% do valor de transformação industrial no Brasil. São Paulo, sozinho, respondeu por 43,93%, Goiás ficou com 1,2% e Brasília com 0,2%. Como podemos perceber, o grosso da transformação industrial ainda se encontra longe do Centro-Norte brasileiro, muito embora o discurso institucional aponte-o como terceiro o maior mercado do país. O professor Luis Estevam tem um artigo muito bom, publicado no Jornal Opção, em 2004. Vale a pena ler. Ele escreve com a propriedade de poucos.
Particularmente, penso que esse discurso tem efeitos negativos, dentre os quais destaco: 1 - a divulgação de uma imagem ideológica pautada na integração da região aos circuitos nacionais e internacionais da economia, conduzida, especialmente, pelos atores hegemônicos que procuram falar pela região; 2 - negação da fragmentação regional, na medida em que o discurso encobre os sérios problemas sociais, como aqueles do Entorno de Brasília e da Região Metropolitana de Goiânia.
É como se o “eixo” fosse, para utilizar a expressão de um respeitado geógrafo francês, uma “região ganhadora”. Uma região ganhadora, sempre, traduz um determinado projeto regional. Um projeto ganhador, que, no caso do Eixo de Desenvolvimento Goiânia-Anápolis-Brasilia, vem se espacializando a partir da ação de determinados atores sociais, sob a película da modernidade e da velocidade. Querem até nos fazer acreditar em um trem-veloz entre Goiânia e Brasília! Tudo marketing. Tudo marketing para a competitividade.
Em síntese, o perigo de tudo isso é creditar o futuro dessa e de outras regiões nas mãos invisíveis do mercado. Se, de fato, existe riqueza nessa área que recobre o eixo, foi o Estado um dos grandes responsáveis por sua capitalização, basta citar os projetos de colonização, a infra-estrutura viária, a edificação de duas capitais, isso sem contar os programas de crédito para atração de empresas. Aliás, o Estado tem contribuído, de forma sistemática, para a amplificação das desigualdades regionais. Um dos propósitos do PRODUZIR ou mesmo do FOMENTAR, por exemplo, foi contribuir, via incentivos fiscais, para a descentralização da produção industrial. Será que isso ocorreu? Vejamos os dados de 2002: os municípios mais beneficiados, seja no PRODUZIR ou no MICROPRODUZIR, foram Anápolis (aquele que mais recebeu incentivos fiscais), Rio Verde, Alexânia, Itumbiara, Catalão, Goiânia, Aparecida de Goiânia, Senador Canedo e Luziânia. Veja bem, nem no caso dos incentivos fiscais temos conseguido sucesso. Analiso essas questões com mais profundidade no livro A região como arena política: um estudo da produção da região urbana Centro-Goiano. Em breve estará disponível.

Humanidades. Você é um dos idealizadores do Observatório Geográfico de Goiás. Como tem sido a receptividade da comunidade goiana?

A receptividade tem sido ótima, especialmente por parte dos professores. A idéia do observatório é relativamente simples: divulgar, no âmbito do espaço virtual, informações sobre o Estado de Goiás. Nossa linha editorial, se posso dizer assim, também é bem definida: divulgamos, preferencialmente, informações que não são encontradas, convencionalmente, em outros meios, a exemplo de artigos, fotos, dissertações, pesquisas etc. Não há qualquer tipo de apologia ao Estado. Quem acessa o site na busca de fotos sobre turismo em Goiás pode até encontrar paisagens bucólicas, mas a maioria das fotos é sobre degradação ambiental, problemas de habitação, obras públicas inacabadas e por aí adiante. A série de fotos sobre águas de Goiânia é muito elogiada, pelo impacto que produz. A geografia da cidade, do Estado, é muito dinâmica. Tudo se transforma muito rápido e a equipe do observatório esta atenta para tudo isso.
Agradeço a oportunidade e me coloco à disposição para continuar essa discussão em outro momento.

Muito obrigado.

Fonte : Revista Humanidades em foco - CEFET-GO

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